Reflexões sobre a manutenção de Peixes em Aquário

Peixes em Aquário – Manter ou não manter?

Tenho um aquário em casa. Está vazio, ocupando espaço na sala de estar, há quase 10 anos. Este aquário não é muito pequeno – tem capacidade para 72 litros de água – mas também não é nenhum tanque gigante. De qualquer forma, ele está lá, esperando que eu lhe dê algum destino.

Há 10 anos, aproximadamente, (até 2008), eu ainda mantinha esse aquário com alguns peixes, como um “hobby” (mantinha um aquário de água salgada também – falarei dele em outra postagem). Haviam duas Betta splendens, um ciclídeo e um caramujo Pomacea – portanto, quatro  seres em um espaço não muito pequeno e bem cuidado (como se pode ver pela foto publicada abaixo), e assim parecia que vivam felizes e saudáveis.

Ao menos era o que eu pensava. Mas a verdade é que eu não tinha como saber se os animais realmente viviam de forma satisfatória: um peixe de lagos gigantes da África, dois exemplares de rios do sudeste asiático e um molusco, confinados em um tanque de água tratada artificialmente, com iluminação artificial e um banho de produtos químicos na água para mantê-la “habitável”.

Nunca havia me ocorrido que, talvez, isso não fosse adequado, apesar de eles nunca terem adoecido ou demonstrado algum comportamento anormal.

A foto a seguir mostra esse meu antigo aquário:

Aquário de água doce de 72 litros

De qualquer forma, com o tempo os animais foram morrendo. Tive inúmeros outros animais antes desses, mas esses quatro foram os últimos a habitar o aquário. O que durou mais tempo foi o ciclídeo, que deve ter sobrevivido por cerca de 5 anos neste ambiente. Quando ele morreu, simplesmente desativei o aquário, o limpei e deixei encostado num canto da sala. E está lá há mais de dez anos, até o momento.

A foto seguinte mostra um dos peixes do aquário de perto – um Betta splendens (“lutador siamês”) fêmea:

Peixe Betta splendens fêmea em um aquário de 72 litros
Betta splendens fêmea

Hora do retorno

Depois de todo esse tempo, resolvi que era hora de voltar a usar o aquário. Porém, depois de todo esse tempo, e de toda a literatura que li e estudei a respeito de animais aquáticos, seu comportamento e conservação, acabei compreendendo que, na verdade, manter peixes em aquários pode ser uma grande crueldade para com os animais. E porquê? Bem, vamos aos fatos que coletei:

  • Estima-se que mais de 95% dos peixes para aquários marinhos vendidos em lojas são coletados diretamente da natureza, em países como Indonésia, Filipinas, Ilhas do Pacífico, Malásia, Ilhas Maldivas, Brasil e Papua Nova-Guiné, entre outros. Muitas das espécies coletadas estão em perigo de extinção nesses locais devido a essa coleta desenfreada.
  • Anualmente, são capturados mais de 20 milhões de peixes, 12 milhões de corais e 10 milhões de invertebrados diversos, como anêmonas moluscos e camarões, vendidos para sustentar o negócio do hobby de aquarismo, que vale cerca de 300 milhões de dólares, no mundo todo.
  • Os peixes são coletados, muitas vezes, de forma cruel. Uma das técnicas mais empregadas é despejar cianeto na água, próximo a recifes de coral, para asfixiar os peixes e facilitar, assim sua coleta com redes – e até manualmente! – sendo que cerca de 50% deles morrem ali mesmo, incluindo animais que não eram o alvo da coleta.
  • Da metade restante, cerca de 40% morre antes de chegar ao seu destino final – a casa do hobbista. Assim, aproximadamente 9 em cada 10 peixes é morto, para que um único exemplar seja vendido em uma loja, no geral para ser usado como “decoração”.
  • Peixes de água doce são, na maioria das vezes, criados em cativeiro, e não coletados na natureza. Aparentemente, isso é um sinal positivo, não fosse pelo fato de que geralmente são criados em espaços ultra confinados, como tubos, e recebendo grandes doses de hormônios e produtos artificiais como alimento.
  • Muitas espécies de peixes se comunicam por meio da emissão de sons de frequência muito baixa, inaudíveis pelos seres humanos (mas detectáveis com equipamentos especiais). Dentro de um aquário temos elementos como as bombas de circulação de água e de oxigênio, que produzem ruído em níveis relativamente altos, mais do que suficientes para cortar totalmente a comunicação dos animais, quando mantidos em grupos. Ou seja, além de estarem em espaços confinados, acabam não conseguindo interagir de forma adequada.
  • A maior parte dos peixes de aquário é mantida em tanques com capacidade muito reduzida – tanques pequenos demais para que os peixes possam nadar e circular de forma satisfatória, e com níveis de oxigenação muito baixos.

Peixes em aquário nunca mais?

Significa então que nunca mais cuidarei de peixes em um aquário? NÃO, NÃO significa isso. Não sou um extremista tentando enfiar goela abaixo das pessoas minha opinião pessoal, e jamais faria isso. Meu propósito com este artigo é expor uma história pessoal, e o que aprendi ao longo do tempo por meio de pesquisa, leitura e experiência pessoal.

O mais importante, creio que, é sempre agir com responsabilidade e com conhecimento de causa. Se você quer manter peixes em aquário, ótimo! Faça isso. Mas fique atento a dados importantes, como saber a procedência dos peixes – criados em cativeiro basicamente não impactam nenhum nicho ecológico -, se a espécie está ameaçada de extinção, tamanho adequado do tanque a ser usado (maior é sempre melhor), qualidade dos suplementos e alimentos fornecidos aos animais, controle das condições de temperatura, iluminação e p.h. da água, entre outros fatores. A organização PETA compilou uma lista de dicas que podem ser empregadas para garantir o máximo de bem-estar aos peixes dentro de um aquário, para que já os tem – e, a meu ver, importantes para quem deseja manter um novo aquário também.

As dicas (adaptadas) são as seguintes:

  • Quanto mais espaço o peixe tiver, mais feliz e saudável será. Suas necessidades variam, então consulte um especialista ou um bom livro de peixes para determinar suas necessidades. Uma regra geral é que você deve fornecer a partir de 5 litros de água para cada centímetro de peixe.
  • Um filtro para remover partículas residuais e produtos químicos nocivos da água é essencial. As plantas vivas ajudam nessa tarefa e fornecem oxigênio, abrigo, esconderijos e comida ocasionais.
  • Trate a água da torneira adequadamente antes de colocá-la no aquário, pois a água encanada contém cloro, que pode matar os peixes. O tipo de produtos químicos que você deve usar depende da água da sua área. Consulte uma loja local de produtos para peixes tropicais para determinar o tratamento adequado.
  • Os peixes precisam de uma temperatura constante, geralmente entre 20 °C e 25 °C, mas você deve consultar a loja de peixes para obter informações específicas para o tipo de peixe que você está mantendo. Aquecedores automáticos de aquário monitoram a água temperatura e ligam e desligam conforme necessário. Anexar um pequeno termômetro ao tanque ajudará a garantir que o aquecedor esteja funcionando corretamente.
  • Diferentes tipos de peixes requerem diferentes níveis de pH. Verifique o nível de pH diariamente durante o primeiro mês e depois semanalmente.
  • Uma bomba de ar funcionando corretamente é necessária para fornecer oxigênio.
  • As excreções naturais de peixes emitem amônia, que pode se acumular em níveis tóxicos, por isso limpe o tanque regularmente, mas nunca esvazie o tanque completamente. Certifique-se de limpar bem o vidro com um pano ou uma escova para evitar o crescimento de algas.
  • Esteja ciente do ambiente fora do aquário. De repente, ligar uma luz brilhante em um quarto escuro pode assustar os peixes, e as vibrações de uma televisão ou de um aparelho de som podem assustar e estressá-los.
  • Crie locais para os peixes se esconderem e explorarem. Objetos de cerâmica, rochas naturais e plantas funcionam bem. Certifique-se de que todos os objetos estejam completamente limpos e desinfetados antes de serem colocados no tanque. Não use objetos de metal, pois eles enferrujam.
  • Mantenha todos os produtos químicos perigosos longe do aquário. Fumaça de cigarro, vapores de tinta e sprays de aerossol podem ser tóxicos se forem absorvidos pela água.
  • Não superalimente os animais! Alimentos não consumidos e resíduos são decompostos em amônia e nitritos, que são tóxicos. Os especialistas recomendam fornecer apenas tanta comida quanto o peixe pode ingerir em até 30 segundos.
  • O aquário deve estar em um local onde a temperatura e a luz sejam constantes e controláveis. As lojas de suprimentos para peixes tropicais podem aconselhá-lo sobre a melhor quantidade de luz para os peixes que você está mantendo. Lembre-se de que a luz direta do sol e correntes de ar vindas de portas ou janelas próximas podem alterar a temperatura da água, e a fumaça de uma cozinha ou oficina próxima pode prejudicar o peixe.
  • A maioria dos peixes gosta de companhia. Se você tem um único peixe, verifique com amigos e vizinhos para encontrar outro peixe solitário para adotar, sempre que possível.
  • Se um peixe parecer estar doente ou letárgico, leve-o a um veterinário. Os peixes podem ser medicados, anestesiados, receberem injeções e até serem operados, assim como os outros animais. Leve uma amostra separada da água do tanque.
  • Lojas de suprimentos e catálogos têm divisores de plástico transparentes disponíveis que podem ser usados ​​para criar uma seção segura em um grande tanque para um peixe beta que viva em um aquário “comunitário”. Certifique-se de que o divisor se encaixe com segurança no tanque e forneça o acesso necessário à superfície. As minhas duas betas vivam tranquilamente juntas e com os outros animais, mas esse pode não ser o caso sempre.

Qual será o destino do meu aquário?

Não colocarei peixes nesse aquário, ao menos por enquanto. Resolvi fazer um experimento e montar um terrário nele, para o cultivo de plantas específicas, como plantas carnívoras ou cactos, ainda a decidir. E, além disso vou desenvolver um sistema automatizado para controle de iluminação, umidade, temperatura, ph do solo e outros fatores, usando circuitos eletrônicos microcontrolados e alguns sensores, e publicarei todos os procedimentos, incluindo os esquemas de construção do sistema e códigos-fonte dos programas de controle que serão escritos, no meu site sobre tecnologia – Bóson Treinamentos em Tecnologia.

E, quem sabe, daqui a algum tempo eu não volte a popular o aquário com peixes? Talvez a aplicação da tecnologia de ponta possa ajudar a construir um ambiente bem adequado para os animais.

Referências

Fish in Tanks? No, Thanks!
https://www.peta.org/issues/animal-companion-issues/animal-companion-factsheets/fish-tanks-thanks/

Fish in Tanks? No, Thanks! Johns response to the PETA article
https://www.youtube.com/watch?v=Vr5yhs-7O6g

Ethical and ecological implications of keeping fish in captivity
https://awionline.org/awi-quarterly/2015-fall/ethical-and-ecological-implications-keeping-fish-captivity

Reebs, S. Fish Behavior in the Aquarium and in the Wild. 2001. Cornell University Press.

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